“Cinema não é só movimento”

cabeca_cesraea_op1

Após ter relançado ano passado o primeiro romance de Fernando Monteiro, Aspades ETs, Etc, a Cesárea vem agora com A cabeça no fundo do entulho, que radicaliza as experiências de Aspades e comprova o quanto Monteiro precisa voltar a ser lido e redescoberto. A cabeça foi Prêmio Bravo de Literatura de Melhor Romance em 1999. Confira essa conversa que tivemos com Monteiro sobre o possível esgotar do formato romance, de como o cinema atravessa sua obra e de como o livro surgiu de forma inusitada.

 

1 – Muito se fala de alguns autores que teriam uma linguagem cinematográfica, que significaria um texto dinâmico, imagético. Mas no seu caso é curioso: a ideia de cinema é diferente, não é ritmo nem são imagens, mas uma atmosfera, uma sombra que atravessa os personagens, a trama. Isso era sentido em Aspades Ets Etc e parece ainda mais forte em A cabeça. Você poderia falar dessa sua relação com o cinema?

R – A piscina vazia das ideias feitas sempre estará transbordando enquanto as pessoas acreditarem que dois-mais-dois são cinco. Corretíssimo o que você diz: muito se fala, mesmo, que “texto dinâmico, imagético” e/ou “cheio de cortes” seria “linguagem cinematográfica” assimilada por um escritor. Ledo e Ivo e falecido engano. Ou melhor, um lugar-comum mental que não se lembra de que cinema não é só movimento, mas também a capacidade de enxergar o intervalo entre as árvores e uma forma de associar que não é as das palavras ligadas como num jardim de cimento. Então, a receita seria outra: para a escrita, engolir uma câmera submarina e um balão, um pensamento colhido num “close-up” e aquela maneira direta que o cinema tem de nos mostrar o fim de um caso, o crepúsculo de um romance, o adeus a uma ideia e uma piscina se enchendo de flores caídas do outono desenhado pela borra de café. Cinema entrou no meu sangue porque eu precisei de uma transfusão, com cinco anos, e o único doador compatível foi um americano caolho chamado John Ford. E ele via mais por esse único olho do que Methódio Guerreiro e Jorge Luis Borges.

2 – Apesar de diversos entre si, Aspades e A cabeça têm alguma semelhanças entre si, sobretudo quando se pensa na ideia de pessoas enganadas por sombras, equivocadas e também tramas que vão se despedaçando à medida que os livros avançam. Quando você pensou nesses livros, havia um plano maior, uma ideia maior a ser discutida? Você acha que esses livros se completam de alguma forma?

R – Eu tenho que ser honesto (infelizmente) e lhe responder que tudo de que eu parti, em “A cabeça no fundo do entulho”, foi da imagem de um sujeito saindo de um hotel, iluminado pelo sol romano: havia árvores na calçada, ele estava trajado como um advogado nerd paulista que pensa que é jovem e promissor etc, e mais nada. Eu não sabia para onde o cara ia — ao pegar um táxi — e fui seguindo esse estranho, como num filme de segunda passando num cinema de terceira. Nessa progressão, eu tinha tudo para escrever um livro de quinta, enfiando a cabeça no entulho das esquinas, mas terminei caindo na companhia de Tomás Seixas e Camilo Cela numa noite louca do Recife e, quando acordei, ressacado, a cabeça ao meu lado podia ser até o crânio de Hamlet: “escrever ou não escrever?”…

3 – Esse foi o grau zero do livro — mesmo — ou é enrolada, pra não responder?

R – Também teria tudo para ser enrolada, mas é a verdade: nenhum livro é mais divertido de escrever do que aquele sobre o qual você não sabe nada. Simplesmente, tudo é surpresa, e você segue, de carona, com os personagens num carro, num passeio por Trastevere ou, mesmo, vai bater numa cama, está ali por acaso, não domina as mudanças. Quando o livro termina, afinal é convidado para ir embora, dar um tempo, sumir do mapa no qual “Roma” (ou Belgrado ou Berlim) nunca mais serão as mesmas para você. Enfim, não esqueça que esse livro também foi a forma de pagar a dívida que eu tinha para com a Roma de Fellini e tantos outros da minha formação na longa noite do cinema italiano.

4 – O livro tem aquela parte central no Recife, com personagens reais como Cela e Gilberto Freyre, que aparece citado de forma bem irônica. O que foi que lhe levou a encaixar essa passagem de Cela pelo Recife? A impressão que me passou é que é justamente nessa passagem que vemos ainda com mais nitidez a cabeça no fundo do entulho?

R – Eu concordo com você: aquela é a visão de espelho do Outro, aquele corte eu fiz para me salvar. De quê? Não é uma pergunta que possa se responder na lata, ou tentando falsificar um pequeno mistério ainda não resolvido. Por que eu saltei naquela noite chuvosa, no tédio que nos assalta nos domingos, entre cerveja morna e a estranha sensação de que estamos “perdendo” a vida? Haveria uma vida para se “ganhar”? Dobro nesta ou naquela outra esquina? E quem era aquela sombra na escada — ombro frio — que levava para o nada, frente a um cais de luzes trêmulas, enquanto você pensa que já esteve ali e a vida está se distraindo com numa repetição? E não seria — tudo — repetição infinda?… E por que o mesmo sonho nos persegue como “um louco com uma navalha”?

5 – Há alguns anos você disse que largaria o romance, aí voltou para poesia e está encerrando ainda um trabalho de artista plástico chamado O ano das lágrimas na chuva, que de certa forma também é uma narrativa. É como se você estivesse sempre tentando reescrever algo ou desconstruir algo, mas procurando sempre outras linguagens?

R — Eu larguei o romance e ele jaz abandonado, por mim (sem fazer nenhuma falta, claro!) desde 2009, quando voltei para o território-de-ninguém da poesia. Nada me chateou mais do que a publicação compulsória de “O Livro de Corintha”, em 2014, porque esse romance — que dormia na gaveta — ganhou um prêmio com edição compulsória etc. Até que ficou bonita a edição da CEPE. Assim, voltei a dar entrevistas como romancista, e tive que tentar fazer dedicatórias inteligentes de romancista em exemplares do romance que, diabos!, até agradou a um monte de gente, eu tenho que admitir. (E ganhei muitos livros da cota do autor, de modo que é só me escrever pedindo um, que a pessoa será castigada com um exemplar). Agora, “O ano das lágrimas na chuva” deverá me levar para a fronteira além das palavras fechadas na antiga caixa da literatura. Caixas abertas virão continuar as narrativas, como você disse, revelando mais daqueles que segredos que “não para se contar” e, entretanto… Mas isso já é outra história, pertence a um outra entrevista — num mundo em que autores dão demasiadas respostas evasivas sobre seus livros.

1 Comentário

  1. Entrevista inteligente e profunda.Entrevista com um tom surrealista, mais para a perspectiva de Bunuel
    jose fernandes de menezes .

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *